quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Personal Clowns

Diferente dos dias anteriores, este sábado foi um dia sem grandes alvoroços. Foi um dia de pequenos grandes acertos técnicos, cheio de momentos em que a teoria palhacística foi colocada em prática.

Um dos quartos que mereceu destaque foi o do garoto de sorriso largo, que nos cativou já logo no início. O quarto estava de luzes apagadas. Uma das crianças dormia e o chão estava limpinho (Dona Maria acabara de sair de lá, ainda com seu crachá ainda errado...). Foi neste clima de tranquilidade que entramos e começamos a jogar no meio do silêncio e de forma pequena. Meu chapéu logo protagonizou a cena pois com o balançar da cabeça ele também se movimenta e, por mais simples que isso seja, trouxe alegria ao menino que nos seus 4 anos achou aquilo divertido. Outras coisas aconteceram e então fomos interrompidos por ele:

-Tio... , eu já tô tomando sopa!

Voltemos às aulas de português e façamos a interpretação do texto....

"Tio" - normalmente as crianças nos chamam de palhaço, de tio foi a primeira vez. rs
"já" - como o tempo das coisas é relativo, não? De qualquer forma deixa claro que a informação seguinte é relevante.
"SOPA" - opa, até eu quis experimentar esta sopa do hospital, deve ser boa!!

A partir daí iniciou-se uma conversa sobre sopas, a qual poderia ter sido até um pouco mais bem explorada, mas o fato é que foi também um gancho para sairmos do quarto na missão de ir verificar se a sopa dele estava sendo feita com capricho. Saímos falando alto pelo corredor com o cozinheiro das sopas.

O pequeno acerto neste caso foi que saímos do quarto mas conseguimos fazer o que gostaríamos que sempre fosse feito, deixar algo no quarto que remeta ao que aconteceu. Fico pensando o quanto a sopa daquele dia ficou mais gostosa pelo que aconteceu lá!

Um outro momento de destaque foi quando entrou um casal no elevador mas o prestativo Afonso encostou no painel de botões do elevador impedindo qualquer escolha de destino. Engraçado, isso acontece quase todo dia no elevador do prédio onde eu trabalho, eu louco pra inventar uma situação nova mas parece que tudo que eu invento já acontece na vida "real"...

Aquela situação acabou causando muitas gargalhadas do casal. Interessante como algumas pessoas ficam tão contentes quando estão sendo perturbadas, não? Deixo esta pro Freud ou qualquer outro cara mais gabaritado que eu. Fato é que a porta temporizada fechou-se e ficamos "presos" por uns instantes o momento em alguém chamou o mesmo noutro andar. O casal ia para o quinto, mas o Afonso acabou apertando o quarto e a dupla "Abobrinha - Afonso" acabou sendo expulsa do elevador neste mesmo andar, o que permitiu ao casal chegar finalmente no andar desejado. Imagino que eles pensaram: "Ufa, ficamos livres dos palhaços". Mas palhaço não some assim da nossa vida com esta facilidade toda. Subimos desesperadamente pela escada e não é que quando a porta do elevador abriu lá no quinto estávamos nós na porta?? Hehe, um laço final para a cena do elevador!

Duas cenas muito distintas, com atuações muito distintas e que deram certo. Sim, nossa principal intenção não é apresentar o que a gente sabe fazer, mas dar aquilo que cada um precisa naquele momento. Neste ponto podemos dizer que somos "Personal Clowns"! Se já inventaram personal trainer, personal dancer, personal whatever, então que seja inaugurada mais esta profissão! Personal Clown! rs

Que nosso trabalho seja cada dia mais sensível à necessidade específica de cada pessoa com a qual nos relacionamos no hospital!

Estafúrcio