quarta-feira, 8 de julho de 2009

Descontroles

A variabilidade de duplas e trios que se formam a cada sábado dá um colorido novo a cada um dos nossos dias de trabalho. Pena que não temos muito controle sobre esta aquarela, às vezes as cores parecem não combinar muito e nos obrigam a buscar o belo em condições adversas. Certamente que este sábado 04/07 não foi um destes. Tivemos muita sintonia e as cores combinaram direitinho!

Nosso trabalho começa na brinquedoteca com muito poucas idéias. Sempre me pergunto se nossos aquecimentos não deveriam ser mais efetivos, tenho a impressão de que vamos aquecendo aos poucos já no trabalho de campo. De qualquer forma peguei os pinos de boliche que havia lá para brincar de malabarista. Esta parte não foi nada demais. A brincadeira começou a aquecer quando por qualquer razão a brincadeira virou "jogar os pinos de boliche no Estafúrcio". Me vi em meio a uma chuva de pinos e fui tentando pegá-los. Naturalmente que ninguem consegue segurar mais do que 15 pinos. A não ser que se tenha prestativas amigas que te ajudem a colocá-los dentro da blusa, em meio aos braços, no chapéu e onde mais quer que um pino possa se alojar. Por amigas incluo a magnífica Janja, a decidia Abigail e a menininha de 3 anos que eu não sei o nome mas também ajudou com um último pino! Que menina mais linda!!!

Pois é, do nada às vezes podem surgir as melhores brincadeiras! Fui caminhando pelo andar todo cheio de pinos e eles me ajudaram a atrapalhar a limpeza da Dona Maria Portírio (lembra dela?). Sim, seu crachá continua errado! Cheguei no quarto em que ela estava passando pano e, mal entrei e já escuto: "Vão brincar pra lá enquanto eu passo pano.". Uai, será que ela não pode passar pano pra lá?? rs Como sou muito obediente saí prontamente do quarto, tudo bem que alguns pinos acabaram caindo sem querer pelo caminho, mas também não dá pra exigir muito né??

Não pense que os pinos perderam sua função ainda. No quarto seguinte vivemos o jogo mais lúdico destes últimos 13 meses de hospital. Iniciamos uma batucada leve com os mesmos. Paredes, vidros, portas, corpo, tudo virou som. Tudo muito leve, simples, sem alvoroço! Pelo vidro o menino foi incorporando nossa música e respondendo a ela de forma inesperada. A vontade era não mais parar. Entramos finalmente no quarto e aos poucos fizemos o que não deveríamos, abandonamos a música e entramos no nada que inaugurou tempos difíceis.

Sem muitas brincadeiras o menino acabou nos dando um latido como elemento de trabalho. Aquela foi a salvação pois começamos a fingir medo e fugir dele. O melhor teria sido usar isto como elemento de saída, mas esta sabedoria nos faltou em certa medida e o garoto começou a correr atrás de nós pelo corredor do hospital, gritando e latindo. É, a gente se mete numas enrascadas de vez em quando. Foi um tempo de aprendizado no meio da insistente pergunta: "O que fazer?". Como primeira resposta agi como agiria com um cachorro que corre atrás do carro e que não sabe mais o que fazer depois que o mesmo para: PAREI! Praticamente uma estátua! Funcionou!! UFA! Só que não foi eficaz, ele resolveu correr atrás das minhas colegas de profissão e recorri a outro recurso, lembrar o garoto que ele estava nos enganando e que era uma criança e não cachorro, motivo pelo qual não tínhamos mais medo dele. Já levo esta como uma lição aprendida de tirar o estímulo é uma possibilidade ainda dentro do jogo.

Este texto já ficou grande demais, mas não há como deixar de contar o ocorrido no vestiário onde os acompanhantes tomam banho. A equipe de segurança do hospital foi toda mudada e era a primeira semana dos novos que, diga-se, estavam perdidinhos. Chegamos no vestiário e a funcionária nos perguntou: "Vocês vão tomar banho?". Oras, não se pergunta estas coisas pra palhaços: "É claaaro que vamooos!". Sim, sim, Abigail e Janja não acreditaram quando já tinham toalhinhas nas mãos. Vamos ao diálogo:

(Funcionária olhando para Afonso) - Mas você vai ter que esperar elas tomarem primeiro.
(Afonso) - Ah, não tem problema.
(Abigail) - É, a gente toma todo mundo junto. Um esfrega as costas do outro.
(Funcionária) - Então tá...

Foi assim que fomos os 3 para dentro e começamos os preparativos. Primeiro entrei eu no box e já fui pendurando a camisa, colete, abrindo chuveiro e tal. Bom, o ritual rendeu bem, e dava pra render bastante mesmo. Quem foi que disse que palhaço também não toma banho??

Me espanta o quanto as pessoas nos levam a sério. Que passa? Será que não reparam na bola vermelha que nos separa? Ou será que na verdade ela nos une??

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O público do hospital público

Cada Sábado tem suas peculiaridades. Neste estávamos em trio (Quelza, Abobrinha e eu) e parece que estávamos mais para "grandes públicos". Muito do que fizemos foi para grupos de aproximadamente 10 pessoas entre pacientes, funcionários e acompanhantes.

No térreo encontramos um desses grupos, no qual conhecemos uma menina que devia ter uns 10 anos e que era cheia de idéias. Com ela nossa vida foi fácil, pelo menos em termos de criação, porque em termos de atividade ela conseguiu nos entreter bem, quase achei que os pacientes éramos nós! Valeu tudo, brincar de estátua (eu era a estátua), de carregar ela no colo (eu carregava) e cabra cega (eu era a cabra), acho que deu pra entender que precisamos de certa energia lá, não? O engraçado foi que enquanto eu estava lá "cego", aproveitei para ir atrás de uma menina mais novinha que eu não estava sabendo se estava gostando de nós ou não. Caminhei na direção dela e ganhei o presente que mais buscamos, ela saiu correndo dando aquela risada de diversão que só as crianças sabem dar! Fiquei correndo em círculo tentando pegá-las até que entrou uma mãe pela porta de entrada da sala e, não tive dúvida, abracei ela com gosto! Imagino que ela deve ter ficado meio sem saber o que estava acontecendo, mas quem mandou ela entrar assim de repente bem naquela hora? rs

O melhor mesmo foi na recepção, quando encontramos uma pernambucana desbocada que estava disposta a participar de tudo. Já que estava participativa, arrumamos logo uma cerimônia de casamento entre o Abobrinha e ela, um casal perfeito... Todos muito colaborativos, até daminha e padre arrumamos. A sala de espera estava cheia e o painel de senhas parecia não estar dando conta de chamar a todos. Tudo caminhava muito bem, um momento bem bonito do amor a primeira vista e, momentos antes do SIM, a senha da pernambucana apita no painel... O que aconteceu? Aconteceu que ela saiu dali desesperada dizendo que era a senha dela e que precisava ir. Tudo tão rápido que nem o noivo conseguiu entender direito que tinha sido abandonado no altar. Tanta gente querendo casar e ela deixa passar a oportunidade por uma mísera senha? rs Realidades de um povo que sabe que sua chance de ser atendido não é tão certa assim...

Como sempre, muito mais coisas aconteceram, mas vamos parando por aqui pois já é véspera de mais um dia de hospital e eu preciso ir recarregar minhas baterias...